quinta-feira, 15 de junho de 2017

domingo, 11 de dezembro de 2016

"Pois, neste minuto sei tão bem do espeço que ocupo
Meu amor, tudo tem seu lugar"


(Retrovisor - CéU)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

o que é um beijo
se eu posso ter o teu olhar?


(Manemolêcia - CéU)
tu vens,
tu vens.
eu já escuto os teus sinais.



(Anunciação - Alceu Valença)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Guido disse que eu estou viciada. Que é parecido com estar obcecada, mas é diferente. Só que era também para me acalmar, pois eu sempre fui assim. Ele acha que, depois de passar tantos anos escarafunchando cada faceta dos meus problemas maternos e paternos, acabei por me acostumar, e passei a repetir o padrão nos meus demais relacionamentos. Que eu dependo quimicamente de mastigar todas as minhas relações, tornando-as um chiclete velho. É, foi o que ele disse, chiclete velho, do qual foi-se embora o sabor, ficando apenas o seco grude.
     - Você deixa aquele chicletinho guardado num canto e pega para usar de vez em quando. Aí masca, masca e masca, até a coisa ficar mole de novo, então mastiga mais um bocado, tirando dela o que ela ainda pode lhe oferecer, depois esconde novamente o chicletinho embaixo de alguma quina.
     - Eu recorro ao chiclete.
     - Exatamente. Você recorre ao chiclete para saborear o que não existe e especular sobre o que é que existe em um lugar que já foi.
     - Sei... E por que eu faço isso?
     - Porque você gosta, você quer elucubrar. Você é fascinada pela verdade, só que não é burra para achar que há somente uma. Então fica vivendo todas as possibilidades. Até que você comprova, através de vários pontos de vista, que você é culpada.
     - Ai... Acho que sou assim, sim.
     - Eu sempre te disse isso.
     - Não, não. Nunca disse.
     - Disse milhares de vezes.
     - Não dessa forma. Você nunca teve essa coragem.
     - Sempre disse, Cristiana, inclusive falei do chiclete e tudo. Acontece que você fica milênios sem querer enxergar um troço, porque você não quer prejudicar sua malhação mental. Começa... Bom, onde começa eu nem sei, mas quase sempre, pouco antes de você concluir que a culpa é sua, você fica com um ódio mortal do objeto em torno do qual você trava essas batalhas.
     - A mastigação.
     - Sim. Você ama a mastigação, mas passa a odiar aquilo que mastiga.
     - Que varia.
     - Varia. Sempre variou. O que eu estava falando antes?
     - Antes do objeto?
     - Ah, então, o objeto. Você tem o objeto, que é o outro, e ele é amargamente mutilado dentro de você, no estágio em que você crê que o objeto é odiosamente culpado. Claro, você faz isso porque não pode aceitar que o outro seja independente de você.
     - Eu queria comer o outro.
     - Você ainda quer.
     - Quero ainda.
     - Quer.
     - Mas o que mais?
     - Após esse delírio de ódio, você começa a se culpar. A coisa pode ir parar em você ou estacionar no objeto. Quando a culpa não lhe parece sua. Mas como você precisa da existência dela, você é viciada em culpa; dependendo da importância desse outro na sua vida, você fica com ele pra mais tarde... guarda o chiclete, pega o chiclete, esquece o chiclete, sonha com o chiclete...
     - E agora?
     - O quê?
     - Que que eu faço?
     - Com o quê?
     - Com esse vício?
     - Ué, é igual a qualquer outro viciado. Um dia de cada vez. Lutar repetidamente contra os pensamentos repetitivos. Parar de vasculhar à toa. De elucubrar em excesso.
     - Mmm.
     - Na verdade, Cristiana, sei lá, talvez você precise realmente disso... Eu não devo dizer como, ou mesmo se você deve parar. Eu sei que isso te faz mal, muitas vezes. Mas pode ser que você realmente precise dessa mal pra viver.
     - Mmm?
     - Por que você não tenta escrever sobre isso? Talvez você entenda melhor, vendo seus pensamentos num papel.
                                                                               .

Preciso desse mal para viver? Creio que sim. E pelo pior dos motivos: a vaidade. Dessa vez, pelo menos, sim, vaidade. "Tudo é vaidade, e o vento passa." Eclesiastes.



(O efeito Urano - Fernanda Young)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

There a many things there I would like to say to you
But I don't know how

Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall



(Wonderwall - Oasis)
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Presta atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó

Presta atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.



(O mundo é um moinho - Cartola)